Fechamento da Tenda Alcântara Machado

O clima, geralmente leve e despreocupado, mudou. Os barracos dos moradores ao lado da tenda trazem agora adesivos numerados da prefeitura junto das paredes pintadas pelos grafiteiros alguns meses antes. Na administração, dois funcionários se revezam entre retirar cheques, preencher formulários demissionais e anotando os nomes dos frequentadores do Espaço de Convivência (popularmente conhecido como "Tenda") Alcântara Machado para tentar garantir-lhes vagas no novíssimo Centro de Referência na Rua Cajuru.
A preferência é para idosos e deficientes, e não há garantia de espaço para os outros.
No pátio da Tenda, suas funcionárias e também membros do Coletivo Autônomo dos trabalhadores Sociais já começam a estender e pintar novas faixas de protesto. Entre uma anotação e um trato rápido com o eletricista que vem consertar a geladeira, trocam-se papos sobre o iminente fechamento da Tenda Bresser (localizada ao lado da Comunidade do Cimento) e sobre uma iminente decosupação a ser empreendida pela Polícia. O clima é de indecisão, mas há uma certeza: Na porta da administração há um papel avisando que a Tenda Alcântara Machado fechará em cinco dias.



Como já escrevi anteriormente, a prefeitura vem tentando fechar o espaço já há algum tempo. Eduardo Suplicy e Luciana Temer já compareceram pessoalmente ao espaço e, aos trancos e barrancos, anunciaram que o fechamento das tendas e desligamento dos funcionários das tendas Bresser, Alcântara e Mooca seriam suspensos. Nada se manteve. Há pouco mais de um mês, a Tenda Mooca caiu, com direito ao Secretário Eduardo Suplicy perdendo as estribeiras. Tornou-se questão de tempo que o mesmo destino chegasse ás outras duas tendas na Radial Leste - região que concentra o maior percentual de indivíduos em situação de rua da cidade.



E, em meio a toda essa doideira, consegui dez minutos de conversa com dois funcionários e ativistas do Coletivo - Marcus e Fabiano - que nos colocaram a par de toda a situação.

Começando pelo Começo. Quando e como foi o anúncio de fechamento da Tenda?

Marcus - No dia três ou quatro de Novembro recebemos aqui na Tenda alguns representantes da ONG Santa Lucia, que faz o gerenciamento aqui do espaço e é uma das quatro maiores da cidade, e eles anunciaram que estava encerrado o convênio com a prefeitura e que o espaço seria fechado no dia quatro de Dezembro, nessa sexta.

Na reunião com o Eduardo Suplicy e a Luciana Temer aqui na Tenda foi anunciado que haveria um trabalho de numeração dos barracos e cadastramento dos moradores com assistentes sociais. Como isso foi feito?

Marcus - É, na verdade (risos), eles mais uma vez fizeram algumas propostas que não foram cumpridas. Eles propuseram uma varredura em todo o espaço dos barracos e conversar com as pessoas para entender qual a demanda e fazer os encaminhamentos necessários, mas isso não foi feito. O que veio foi a ordem de cima para fechar o espaço e que as famílias que moram aqui seriam removidas. A única proposta que eles dizem que a prefeitura tem a oferecer é o auxílio-aluguel, e muitos não conseguiram acesso seja porque não se encaixaram no perfil ou não tinham o minimo de renda... Então a grande maioria está fora do programa e não se tem outra proposta de moradia para que eles saiam daqui e abandonem suas casas com suas coisas.

Fabiano - Nessa própria reunião com o Suplicy ficou acordado que tudo o que fosse decidido pela Secretaria de Assistência Social seria feito com participação da população de rua. Nada disso foi feito. Quando vieram os assistentes sociais para demarcar os barracos, eles simplesmente chegaram as sete horas da manhã - antes mesmo dos trabalhadores chegarem para abrir a tenda - e começaram a colar os adesivos nos barracos sem conversar com as pessoas que moravam dentro deles, então muitos negaram a marcação. e desde então não houve mais nenhuma proposta que fosse construída em conjunto. Então no começo de Novembro chegaram com o aviso de fechamento do espaço mas nada de proposta além dos bolsa-aluguel que não vão atender a toda a população.



Recentemente foi inaugurado aquele novo "Centro POP Rua" da prefeitura... 

Marcus - Ah, sim! É um serviço para a população de rua que funciona basicamente como uma Tenda, porém não é debaixo do viaduto. Só que esse serviço fica muito distante das tendas que estão sendo fechadas. Então, ele não é totalmente válido pra atender a população aqui na região da Radial Leste, mas sim só da região que ele faz parte [O centro fica na Rua Cajuru, 362, no bairro do Belem].

Fabiano - A prefeitura alega que está seguindo a tipificação nacional para o conceito de Centro POP

Criação de Centros de Referência, não é?

Fabiano - Sim, centros de referência para a População de Rua, só que, como o Marcus disse, ele não atende o território inteiro das tendas. A Mooca já foi fechada, Bresser e Alcântara vão fechar agora, e eles estão deixando a região que, segundo o Censo da prefeitura, é a que concentra o maior numero de individuos em situação de rua, totalmente descoberta. E tudo isso pra abrir um centro que fica no Bairro do Belem, que é uma região mais residencial e cuja população já se manifestou contra o projeto. São três espaços que serão fechados para colocar toda essa população dentro de um único espaço que já está sofrendo rejeição da população no entorno. Então provavelmente a repressão lá vai ser muito maior, além do fato de que as pessoas que não se enquadrarem nas propostas da prefeitura, todos de propostas bem rígidas - e nas quais a maioria da população de rua não se encaixa - vão perder completamente seus lares, que são os barracos, por mais precários que sejam. Se retirar isso delas, elas vão fazer o que? Ou elas se enquadram no que a Prefeitura quer, ou elas acabam voltando pra calçada literalmente.


O Coletivo chegou a fazer alguma reunião com a Secretaria de Assistência Social? Houve algum debate sobre o assunto com a Prefeitura após o anúncio de fechamento das tendas?

Marcus - (risos) As únicas "reuniões" que tivemos foi quando a gente apareceu de surpresa na Secretaria e quebrou a pauta, mas nunca houve nenhum convite do Poder Publico para conversar com os trabalhadores de ponta das tendas ou com a própria rua. E isso a gente acompanha já historicamente. Todas as vezes que foi prometido, por exemplo, a construção de um novo espaço, um novo centro de convivência juntamente com a População de Rua e com os trabalhadores sociais os projetos nunca foram pra frente. Nunca se criou esse canal de comunicação ou qualquer tipo de vínculo para essa construção conjunta. O que se tem é o que se acostumou a ver: Propostas decididas em gabinete e passadas verticalmente pra gente. E a gente sabe que isso não atende as demandas reais. Esses debates em gabinete são a nivel muito deliberativo e não estão dentro da prática, dentro do serviço ou dentro da própria rua, entende? Então a coisa acaba sendo um tanto quanto esquizofrênica.

Fabiano - Só pra completar o que o Marcus falou sobre os canais de comunicação com a prefeitura, os trabalhadores aqui da Tenda fizeram uma proposta para a Prefeitura de um novo espaço que fosse construido com os trabalhadores e o pessoal da rua. Corremos atrás do imóvel, passamos os dados para a Prefeitura e até agora não foi dada uma resposta sobre isso. Pra gente seria uma forma de manter o serviço próximo a essas pessoas e não fazer com que elas tivessem de migrar para longe de suas casas, sem respeitar sua identidade e território já que muitas pessoas estão nessa região há 30, 40 anos.

Como tem sido o processo de fechamento da tenda? O pessoal do Coletivo e da maloca estão se preparando para algum tipo de resistência?

Marcus - O Coletivo também se organiza de forma autônoma e uma das nossas características básicas é a resistência para que a luta continue por dignidade dos mais pobres. Então estamos sim nos organizando. Toda ação tem uma consequência e uma reação. O Poder Público está agindo de uma forma bem traiçoeira mas não diria que totalmente inesperada porque o que esperamos deles sempre foram as piores tragédias. O Coletivo sempre se organizou para resistir a essas ações da prefeitura e do Poder Público e é o que vamos fazer agora.



É isso, muito obrigado.

Abraços e até a próxima


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