Noite na Maloca (Alcântara)

Texto e Imagens: Walmor Carvalho




De antemão, desculpo-me se o texto soa um tanto incongruente. A experiência é algo difícil de recuperar.

Definitivamente, com o anuncio de fechamento da tenda Alcântara Machado, a rotina mudou. E hoje finalmente pude sentir um gostinho do que foi essa mudança. Com o fim do respaldo dado pela prefeitura, Os trabalhadores (ligados ao Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais) simplesmente deram uma banana ao Poder Público e, unidos aos moradores da rua, ocuparam o espaço de convivência para mantê-lo aberto à população. Semelhante foi tentado pela comunidade do Cimento, na Bresser, que foi afetada pelo fechamento do centro de convivência lá. Infelizmente, a GCM foi mais rápida e evitou a ocupação.

Na manhã de hoje estava marcada de ocorrer a desocupação da Comunidade do Cimento, da mesma forma que ocorreu na Mooca mês passado - Moradores que se cadastraram nos programas mal-estruturados da Prefeitura teriam seus barracos derrubados e seriam encaminhados para o novíssimo espaço da Rua Cajuru.

Mas não foi bem o que aconteceu: com a comunidade bem organizada, GCM e Prefeitura não conseguiram proceder com a derrubada dos barracos. Com a intervenção do padre Julio Lancellotti (da Pastoral de Rua), de membros do Coletivo e ameaças de conflito, tudo o que conseguiram fazer foi derrubar uma das barracas - e por desejo do próprio morador. A coisa toda ganhou contornos de espetáculo, com motolink e helicóptero da Record ao vivo e frases escritas a tijolo no asfalto xingando o Prefeito. A operação toda foi considerada uma vitória pelo pessoal da Alcântara - a próxima na lista - mas mesmo assim o clima segue apreensivo.

O que nos traz de volta à Tenda Alcântara Machado. As atividades culturais seguem a todo vapor, e agora amparadas por uma disciplina firme e - à moda do Coletivo - decidida em assembleia. Hoje foi dia de Sarau punk, mas outras ainda virão.





A rotina é regrada, com horários fixos para abertura e fechamento dos portões, limpeza dos banheiros e das áreas comuns e turnos de sentinela durante à noite. A ultima limpeza dos banheiros e do pátio foi feita logo após o Sarau, o portão principal se fechou às 22 em ponto e as luzes foram desligadas meia hora depois. E é nessa hora que começa o turno da noite, afim de evitar qualquer abordagem surpresa da polícia - o que, de acordo com os moradores da maloca ao lado da Tenda, não é de todo incomum. O turno não é de todo solitário: Alguns moradores da maloca ao lado da tenda ficam acordados ás vezes até as 5 da manhã, fazendo companhia num sofá logo em frente ao portão.





Lá pelas 23, chega a janta na forma de duas caminhonetes de uma ONG que passam para distribuir marmitas. Do lado de dentro, alguns terminavam de assistir a um filme na TV antes de dormir.





Fui escalado juntamente de Alexandre - médico anarquista que prestava serviços na Bresser, para o segundo horário - das 4 ás 8 da manhã. Tentamos dormir numa barraca emprestada, mas desistimos devido ao barulho da TV e da bendita Radial Leste que passa, literalmente, sobre nossas cabeças. Após reacertarmos os turnos, fomos para o sofá na frente da maloca onde a conversa seguia animada, abastecida por musica e considerável quantidade de bebida. Uma garrafa de uisque que Alexandre trouxe para o pessoal jazia vazia, acompanhada de pequenas barrigudinhas de Corote. É como se as horas da madrugada saíssem de compasso.




Em determinada hora, a conversa gravita para o que aconteceu na Bresser, mas em tom de comédia: Alexandre recorda da confusão que o apresentador de TV da Record, que cobriu a confusão, se descabelava para entender o que raios um médico fazia entre policiais e moradores de rua revoltados. Todos dão risada quando um dos moradores lembra de quando um funcionário da Prefeitura levou uma "pedrada" - de acordo com o apresentador de TV - bem na cara: O tal funcionário se chama Neto, e goza de pouquíssima popularidade entre as comunidades da Zona Leste por frequentemente distorcer acontecimentos em seus relatórios à Secretaria de Direitos Humanos. Na operação, Neto tentava intermediar as negociações entre a GCM e a comunidade quando, de repente, levou um ovo bem no rosto. Mas, por causa do ângulo da pancada, o ovo não se espatifou e deixou-lhe um belo vergão no rosto. Risadas e risadas.

As risadas mudam de tom quando Jade, uma vira-lata com ares de pitbull cuidada por todos, consegue encurralar e matar uma ratazana que tentava entrar na maloca logo atrás. Todos vibram, enquanto Jade deixava a carcaça do animal no asfalto.

Jade, a caçadora

De volta ao assunto. Alexandre pergunta a todos se estão informados sobre como vão proceder os cadastros e retiradas do Auxílio-Aluguel. Não há consenso: uns dizem que o dinheiro começa a cair agora dia 15, outros dia 20... O mesmo se dá sobre as condições para recebimento do benefício: alguns dizem que dura um ano, outros dizem que dá pra receber por até cinco anos. Um morador, que depois se identificou como Tiago Burlan, disse que só está esperando o dinheiro cair para ele se mudar de vez para Cuiabá. Depois, em conversa, ele disse ser irmão do cineasta Cristiano Burlan - diretor do documentário "Mataram meu irmão", de 2013.



O papo segue sério: E agora, o que pode acontecer na Alcântara? O médico explica que a Bresser pode ter sido usada como um ensaio-geral para uma eventual remoção na Alcântara, e agora serão obrigados a repensar as estratégias. Fernando, um dos locais, é mais enfático: "Acharam que ia ser fácil que nem na Mooca e se ferraram, e se tentarem na Alcântara vai ser pior". Já uma moradora, com quatro filhos e pouco mais de um mês na Maloca, tem outro tom: "Eu já me cadastrei com a prefeitura e vou me mandar daqui assim que o bolsa-aluguel cair, não sou louca de sair na mão com a Polícia, não".

Tomo nota que já são por volta de 3 da manhã. Alguns deixam o sofá e vão dormir, e Alexandre a essa altura já apagou no sofá. Lá pelas tantas Fernando reaparece com um cobertor e cobre o médico. "Direto lá da minha suíte presidencial", ele diz. Alexandre acorda brevemente, agradece e volta a dormir. Levanto para esticar as pernas e fazer mais algumas fotos.



Lá pelas tantas me recordo de conversar com outro local, acho que se chamava Marcelo. Ele conta que saiu de casa com 9 ou 10 anos, cansado de apanhar dos padrastos. Disse também ter pego cadeia entre os 18 e os 27 anos, mas não disse o porquê. Mas elogiou a organização e o suporte mutuo do pessoal da Bresser. Nisso Fernando entra de novo na conversa e fala sobre o que pensa da luta dali em diante: "A policia não vai conseguir tirar a gente daqui. A gente é organizado demais pra sair. Podemos até perder, mas eu to aqui pra guerrear junto".

Mais algumas caminhadas e esticadas depois, chega a dupla do segundo horário com uma garrafa de água ainda semi-congelada. Alexandre acorda, agradece o cobertor e vai para a barraca dormir mais um pouco. E eu? Me despeço dos ainda acordados e sigo para o metrô, que acaba de abrir.

Fim de noite

Mas eu prometo que ainda volto.

Até a próxima!
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