Adeus ao Carnaval com o Coro de Carcarás

Coluna: Pé no Asfalto
Autor: Walmor Carvalho




Lembram quando teci diversos elogios à bateria do Coro de Carcarás sob o minhocão? Pois então, aquilo era só um ensaio. O evento principal, o "Arrastão", foi a chave de ouro que encerrou o carnaval de rua paulistano deste ano. E de forma apoteótica.

O evento estava marcado para começar às 17 horas na Praça do patriarca, no Centro, mas a boa e velha chuva de verão adiou os planos. Naturalmente, o tempo foi preenchido com forte pegação e consumo de álcool.





Eis que, eventualmente, um burburinho surge da Rua São bento, logo ao lado. A bateria do Coro chega trovejando sem recato, logo de posicionando na praça e abrindo uma boa roda para a apresentação de abertura dos rappers Linha de Frente MC's e Maloka Imperial. Coisa classuda, com megafones para os MCs e batida feita ao vivo pela bateria.






Logo após a apresentação, foi hora do cortejo sair. Rugindo, a bateria era seguida por foliões dos mais animados que dançavam, rodopiavam e pulavam até a primeira parada do trajeto: as escadarias do Theatro Municipal. Lá, teve inicio a primeira intervenção artística dentro do tema do cortejo, que é o combate à ordem e à opressão. Não tardaria para a festa recomeçar e seguir, aos rodopios, para o largo do Arouche.












E rodopiamos literalmente. Foliões não paravam de dançar, se embebedar e rir ao som do maracatu. Demonstrações carnais e sedentas de amor aconteciam a cada canto, enquanto o batuque retumbava e as cabaças de contas chacoalhavam.








 A realidade parece rodopiar e borrar enquanto, a passo acelerado, o cortejo se aproximou do Arouche. Lá, foi o momento de mais uma intervenção contra o cerceamento do direito à cidade: cordões de isolamento foram estendidos entre o publico e a bateria, enquanto efígies de notórias figuras publicas como Dilma, Haddad e Alckmin foram elevados em bambus - eram as "cabeças" do monstro a serem cortadas. Não tardou para o cortejo seguir sua trovoada em curvas pelo centro até a Praça Roosevelt.













E, na praça, ficou o ponto alto do festim. Bateria e público, entoando maracatus misturados com canções de batalha dos protestos, se posicionaram em frente à base antiga da GCM. Subitamente, a bateria se puxou para um lado e um circulo se formou. os rostos dos pirulitões de bambu foram então queimados ali mesmo numa grande fogueira, que foi a deixa para o momento mais surreal da coisa toda: A bateria soando tal qual uma força da natureza, enquanto foliões dançavam, corriam e se beijavam em torno da fogueira como uma enorme festa pagã.








Camisas, sutiãs e blusas foram tirados.  Foliões escalaram os postes de luz apagados da praça e saltavam sobre a fogueira que ia perdendo fôlego. Beijos entre homens, mulheres e casais foram trocados numa celebração à liberdade crua e selvagem. Mais uma vez, é como se as fronteiras da realidade se borrassem por algum tempo.









Mas o tempo, infelizmente, acabou lá pelas 22:30. A bateria puxou o ultimo apito e se retirou para o desmonte dos instrumentos, seguida por alguns foliões que se dispersaram pelas redondezas. Aproveitei o momento para escorregar pelo silêncio da Rua Caio prado rumo ao barulho da Rua Augusta, com o "Maracatu de Uma Tonelada" ainda retumbando nos ouvidos.
Provável que retumbem até o ano que vem.



Abraços e até a próxima.
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