Ato em defesa da Democracia 18/03


Coluna: Pé no Asfalto
Texto e fotos: Walmor Carvalho


Naturalmente, em nome do nobre espírito jornalístico de ouvir os dois lados, era óbvio que iria me enfiar no chamado "Ato em defesa da democracia, dos direitos sociais e contra o golpe", organizado pelo PT e adjacências como resposta ao protesto de Domingo (cujos tragicômicos desdobramentos prosseguem até hoje), assim que me recuperasse plenamente dos traumas psicológicos daquela cobertura.

E, após me recuperar dos fortes efeitos físicos de uma cobertura deste calibre, trago a vocês, caros leitores, o que vi de mais um dia a ser lembrado quando a república brasileira finalmente ruir.

Se o ato de domingo carregava fortes traços de programão familiar, o clima do ato desta sexta tinha tons quentes de comício político à enésima potência. Militantes de diversos movimentos e centrais sindicais da base petista eram despejados de ônibus fretados direto na Paulista. Quando o trânsito travou por conta do bloqueio da avenida, os ônibus esvaziavam a carga de militantes, bandeiras e instrumentos musicais pela Rebouças afora, com a galera completando o trajeto a pé sorridentes.


Na Avenida Paulista, a estrutura era imensa e mais centralizada que no domingo: Um trio elétrico grande com palco e telão foi montado em frente ao MASP, e caminhões de som menores foram espalhados pela avenida para transmitir os discursos e pronunciamentos aos companheiros mais distantes do carro principal. Os grandes balões das centrais sindicais completavam o cenário passivo-agressivo, com as lideranças no trio elétrico comemorando as 200 mil pessoas que teriam trazido à avenida "sem ajuda do metrô nem da Polícia e nem do Governo do Estado".






Gozado foi ver como se compunha a massa: Dentre as camisas, coletes e bandeiras alvirrubras, se destacavam várias bandeiras e camisetas do Brasil, ornadas e apresentadas ao lado dos símbolos petistas tanto nas mãos dos militantes quanto dos sagazes vendedores ambulantes. O clima de forma geral foi mais tranquilo com exceção dos petistas aglomerados em frente ao prédio da FIESP - o palco central das manifestações anti Dilma - que xingavam e gritavam palavras de ordem contra a instituição e contra a "Imprensa Golpista" instalada com seus repórteres e câmeras no mezanino da FIESP. Lembro de abrir um sorriso ao fotografar, no caminho de volta à Augusta, uma bandeira anarquista tremulando cercada de militantes do Levante Popular da Juventude.






 Com o cair da noite, chegava a hora de receber os convidados mais ilustres. O ex Ministro da Saúde Alexandre Padilha circulou e distribuiu selfies pelo entorno do carro de som principal sem empecilhos, enquanto Eduardo Suplicy e o Prefeito Fernando Haddad foram mais adulados na subida ao carro de som. Mas todos prendiam a respiração no aguardo da grande estrela da noite: O Ex Presidente Lula. 



Durante a enervante espera, entre conversas e expectativas de fotógrafos, eu e o cinegrafista Gabriel Chaim chegamos a ouvir de uma sorridente e curiosa militante petista a seguinte pérola: "Vocês são da Globo? Se vocês não forem podem ficar mas vamos chutar vocês daqui se forem". Entrando no clima de piada, respondi que seríamos cinegrafistas equipados na Globo, e não fotógrafos maltrapilhos. 

Até que, enfim, chegou a hora. Dois carrões pretos arrombaram caminho pela ladeira estreita até chegarem o mais próximo possível do trio elétrico, e foram imediatamente cercados pela imprensa e por admiradores, todos ensandecidos como se aquela fosse a vinda do Messias. Lula precisou ser quase arrancado do carro e arrastado em meio à turba que, por milagre, não esmagou ninguém. Nessa hora vi o quanto as minhas botas valeram o investimento, de tantas pisadas e empurrões que me deixaram imobilizado mesmo após a entrada de Lula no caminhão. 




Mas a via crucis da noite ainda não havia acabado: Com muito custo consegui dar a volta e me posicionar na lateral do trio elétrico principal para acompanhar os discursos. Lutando contra o vagalhão humano, consegui me posicionar relativamente bem para mais fotos, mas me vi novamente imobilizado antes do Haddad (anunciado como "O melhor prefeito do mundo") tomar o microfone, para delírio da multidão. Em seu discurso ele ressaltou a importância do protesto daquele dia em defesa da democracia e em defesa de suas instituições, para que inclusive os políticos e militantes da oposição não fossem acordados e forçadamente levados para depor tal como ocorreu com Lula. Foi ovacionado aos gritos de "Não vai ter Golpe!". 



E então, após parecer distante durante a fala do presidente da CUT, Lula pega o microfone para delírio da multidão. E, em seu discurso, trouxe de volta a figura do "Lulinha Paz e Amor" ao comentar qual seria seu perfil como Ministro da Casa Civil (cuja militância toda comemorou a posse definitiva com a derrubada da liminar que a impedia), ressaltando que faria de tudo a ajudar a Presidenta a continuar o projeto que levou o FIES, as Faculdades e Escolas Técnicas Federais e todos os etecéteras à grande massa. Defendeu a democracia e a paz política, mas não perdeu a chance de alfinetar a oposição ("Tem gente que fala em democracia da boca pra fora. Perdi as eleições em 89, em 94 e em 98 e em nenhum momento vocês viram eu ir pra rua protestar contra quem ganhou", disse) e opôs a massa militante naquela noite aos manifestantes de Domingo dizendo: "Eles usam o verde e o amarelo por se acharem mais brasileiros do que nós, mas dentro das veias deles o sangue é vermelho!". 





Lula, acompanhado de figuras históricas como Leci Brandão

Pra mim, aquela foi a deixa para finalmente sair daquele salseiro -  o que consegui com dificuldade - e ir descansar no escritório não-oficial na Augusta. E, pelas ruas paralelas apinhadas de carros, ouvi o tilintar tímido de panelas vindo dos prédios. 

 O publico, mesmerizado

A moral da história?  Após muita meditação, pra mim fica claro que tudo aquilo foi a maior exibição de músculos que o PT conseguiu reunir em anos, mas o tom do discurso é perigoso. A todo momento éramos lembrados do "Projeto" do PT: Políticas para as mulheres e população LGBT, expansão do acesso à educação e dos direitos humanos, garantia dos direitos trabalhistas... Mas é difícil tirar da cabeça a sanção - mesmo com vetos - da Lei Antiterrorismo (13.260/2016) pela Presidenta Dilma; assim como o atoleiro econômico causado pela deterioração das políticas sociais rentistas dos Anos Lula e que agora estão sob ameaça no Governo Dilma, após uma série de medidas neoliberais na economia e nas nomeações ministeriais. Enquanto tudo isso ocorre, o PT conseguiu polarizar a crise entre Democracia x Golpe, Progresso x Retrocesso mas segue minando suas próprias bases de apoio e luta com a intensa burocratização dos movimentos sociais e tentando acenar desesperadamente aos setores conservadores que, cada vez mais, querem apunhalar a presidência. O que nos leva ao ponto principal. 

Aguentem firmes, leitores, pois já está acabando.

Durante todo o dia, ficou cristalino no protesto o principal pecado do PT: a insistência no chamado "Governismo de Coalizão". Lula prega a defesa da democracia como instrumento de união, mas rechaça e generaliza os opositores. Prega a luta contra os golpistas, mas cede à pressão deles por cargos. Lutam contra o ufanismo golpista, mas incorporam as mesmas cores. Clamam pela união em torno da democracia, mas se isola cada vez mais num discurso de "Nós contra a Rapa" que vai acabar enterrando o PT; a esquerda brasileira que ainda não tem força própria e, pelo andar da carruagem, pode acabar afundando a própria república brasileira numa guerra política sem fim.



Mas animem-se, leitores! Ainda não é o fim do mundo, apesar de já conseguir vê-lo daqui. 

Forte abraço, e até a próxima.


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